





Nem Any Gabrielly consegue defender todas as escolhas de Marina, a estudante de direito que interpreta em Habeas Corpus, o primeiro drama jurídico nacional da Netflix. “Eu quero defender a minha menina, mas, sim, ela é mentirosa”, admite. Sobre Silas (Vinicius Carvalho), o namorado da jovem, a atriz faz uma observação à parte: “Coitado do Silas, gente!”.
Marina é uma jovem de origem humilde que chega à universidade com uma missão que envolve a professora Inez Franco, vivida por Marjorie Estiano. Ao entrar no grupo de revisão criminal que tenta provar a inocência de Jonathan (Hypólito), um rapaz que está encarcerado há seis anos, ela se aproxima de uma mulher que conhece muito melhor do que deixa transparecer. A convivência, porém, complica os planos da futura advogada, que passa a admirar quem antes pretendia responsabilizar por uma injustiça do passado.

Marjorie também conhece as falhas da sua personagem. “Não conseguiria apontar um dedo para a Inez. Eu compreendo as razões dela”, diz. Para o papel da docente, uma ex-criminalista que carrega uma culpa imensa, buscou uma postura ereta, movimentos precisos e espaço para o que havia de caótico naquela mulher. Any, por sua vez, precisou dosar quanto da dor de Marina podia aparecer em cena sem entregar os segredos da aluna.
Conversamos com as duas sobre essas escolhas, o trabalho para fazer o juridiquês sair com naturalidade e a influência do figurino — incluindo o tec-tec de uma botinha de salto. Também perguntamos por uma história de bastidor que o público nem imagina. E elas tinham uma: a gravação de uma cena que insistiram em repetir, apesar da aprovação do diretor Luiz Villaça, e que Any descreve como um “colapso coletivo do bem”.
Leia abaixo a entrevista na íntegra e, depois, assista à temporada completa de Habeas Corpus na Netflix.
No início da série, Marina sabe coisas sobre o passado das duas que Inez ainda não sabe. Como vocês dosaram o que podia aparecer num olhar, ou num gesto, e o que precisava continuar escondido nas cenas entre elas?
Any Gabrielly: Essa é uma pergunta legal porque foi a primeira vez que me deparei com uma situação assim. Às vezes, eu entregava uma cena pensando 100% na verdade, em como aquele personagem reagiria, porque isso é o mais importante, óbvio. Mas depois alguém chegava para mim e falava: “Você acabou de entregar tudo para o público. Você precisa achar um jeito de dosar esse mistério e, ainda assim, manter a verdade”. Foi muito desafiador pensar também em como a gente estava contando a história inteira. Eu cavuquei bastante para entender onde ia entregar o quê, em que quantidade ia entregar esse conflito, a dor que ela [Marina] carregava. Isso foi bem calculado no processo de estudo.
Marjorie Estiano: O arco da Marina é o mote da história da Inez para a reparação, para a tentativa dela de se recolocar. Por isso, eu já sabia [do passado da Marina], mas o roteiro foi sendo liberado aos poucos, e a gente ia fazendo o arco para compreender. A minha personagem, por outro lado, não tinha esse viés da mentira: ela não fazia muita questão de esconder o passado. Pelo contrário, usava isso o tempo inteiro. A Inez tinha uma culpa que vinha sempre com ela. E as pessoas já sabiam o que tinha acontecido porque o caso se tornou público. Mas eu acho que a Inez dissimula menos. Ela é muito reta, muito direta. Isso é até curioso diante da profissão do advogado, que acaba criando vários caminhos para conseguir chegar no fim. E ela é reta.

Que peça ou detalhe do figurino mais ajudou vocês a encontrar a postura e o jeito de se movimentar de Marina e Inez?
Any Gabrielly: Não me apeguei a nada específico do figurino, mas, no geral, ele tem esse papel. Na vida mesmo, quando vamos para algum lugar, a gente veste uma roupa bonita e chega diferente, se sentindo bem. E acho que o figurino tinha esse poder de também me aproximar das situações. Se eu estava com uma roupa que me dava essa sensação de Marina em casa, eu me aproximava dessa situação. E era a mesma coisa num grande embate no tribunal, quando Marina colocava a botinha de salto dela e fazia tec-tec ao entrar. Eu achava isso o máximo. Isso, de fato, tinha uma influência no meu corpo. Acho interessante como os figurinos tiveram esse poder sobre mim.
Marjorie Estiano: A maneira como a gente se veste fala sobre o nosso comportamento, sobre a nossa personalidade, sobre o momento que estamos vivendo. E penso que, na construção, eu também, como a Any, não foquei o trabalho em uma peça específica, mas em diretrizes de postura, de fisicalidade: ser reta, ter movimentos precisos e ser, ao mesmo tempo, caótica. A construção da fisicalidade fez parte do meu processo de descoberta de quem era a Inez.
Além disso, só temos contato com o figurino uma ou duas semanas antes de começar a filmar. Mas ele contribui muito, e oferece tanto vantagens quanto dificuldades. Às vezes, é uma peça que te segura, e aí você tem que descobrir outros caminhos de se tornar um pouco mais fluida num figurino que talvez restrinja um pouco mais o movimento. É um jogo muito colaborativo: do figurino com a arte, com a luz, com a direção, com a atuação. Todo mundo é responsável pela construção daquele personagem.

Com tanto juridiquês na série, qual fala ou termo deu mais trabalho para sair com naturalidade? Como vocês ensaiaram os textos com mais termos jurídicos?
Any Gabrielly: Aquele tanto de palavras complicadas foi, definitivamente, um desafio. Mas, mais do que decorar as palavras em si, era colocar significado nelas. O estudo dessas palavras era uma decupagem insana de roteiro. Toda hora a gente tinha que parar e perguntar: “O que é isso? Não, ainda não entendi. Mas, se isso é isso, então como isso é aquilo?” Era um processo.
A gente se dedicava muito a entender o significado das palavras e depois tinha o trabalho de colocá-las no cotidiano, na minha boca, no meu corpo, para que fizessem sentido, para que não fossem estranhas. A pessoa que está inserida naquele contexto apenas fala, é como falar “Oi, bom dia”. Sabemos o que isso significa. Dar significado para as palavras foi até mais difícil do que o trava-língua da palavra em si. “Despachar não sei o quê para o promotor; a dilação; o auto; a cadeia de custódia. Nossa!”. Era isso e mais um pouco.
Marjorie Estiano: Era um trabalho de musculação, de repetição; não só de imprimir e saber o significado e dar imagem para aquilo, mas da oratória mesmo, de tornar aquilo orgânico, natural, simples na sua boca. Senão, você fica na palavra, fica na letra, e aquilo se torna muito mais difícil de compreender. Foi um desafio mesmo. Havia muitos termos, um vocabulário próprio e muitos significados que a gente não conhecia. Além do vocabulário, das palavras, havia os artigos também. As ferramentas de Justiça, de ação da Justiça.

Vocês têm alguma história de bastidor que o público nem imagina?
Marjorie Estiano: Temos! Fizemos a cena de um encontro da Inez com a Marina que era sobre uma grande revelação. A gente sempre teve muita expectativa, porque seria um momento em que elas estariam ali entregues, transparentes uma para a outra, com todo o passado vindo à tona. Toda a relação afetiva que elas tinham seria impactada por aquele atravessamento. Mas a gente não estava se sentindo confortável e ainda não tinha certeza sobre a cena. Fizemos várias vezes, discutimos com o Luiz [Villaça, cocriador e codiretor], voltamos, fizemos de novo. Ainda era uma noturna, choveu, enfim. Acabamos saindo meio frustradas, pensando que não tínhamos acertado e que não tínhamos feito a cena com a importância que ela deveria ter. Quando a gente assistiu…
Any Gabrielly: A gente pensou: “Caraca, funcionou! Funcionou pra caramba!”.
Marjorie Estiano: Sim, estava lá. A gente estava presente, a cena aconteceu ali, mas a nossa sensação interna não reflete o que está acontecendo. Isso é recorrente, aliás. Para o bem e para o mal.
Any Gabrielly: Exato, foi um colapso coletivo do bem. O diretor falava que estava bom e a gente pedia para fazer de novo. Ficamos nessa, em um desespero coletivo, mas deu tudo certo no final.
Pensando nos dilemas morais da série, em que momento vocês disseram para si mesmas: “No lugar dela, eu faria diferente”? Ou: “Eu faria o mesmo”?
Any Gabrielly: A Marina é complicada, apesar de ter motivos fortes, que mudaram a vida dela para sempre de uma forma muito negativa. Ela toma algumas decisões que são muito difíceis de defender. Ela mente — eu não quero chamar a minha personagem de mentirosa, mas ela é, infelizmente. Eu quero defender a minha menina, mas, sim, ela é mentirosa. Independentemente do contexto, do que fez ela ser do jeito que ela é, a Marina erra muito com as pessoas. Tem até uma fala dela sobre isso. Ela diz que mentir foi o jeito que conseguiu para sobreviver.

Any Gabrielly: Essa também é a beleza do nosso roteiro. Você vê pessoas cometendo erros sempre de lugares muito genuínos para elas, sejam eles moralmente corretos ou não, éticos ou não. E dá para entender que a mesma pessoa que pode ser muito ética também pode cometer um erro completamente estúpido. Acho que essa contradição sempre existiu. Apesar de eu admirar, reconhecer e amar a Marina em todos os aspectos, as escolhas que ela faz com os amigos, com o namorado — coitado do Silas, gente! — e com os colegas são escolhas que eu espero não ter na minha vida.
Marjorie Estiano: A série também é um pouco sobre esses conflitos éticos: a gente critica o outro e, depois, faz o mesmo que está criticando. É difícil responder porque a gente imputa ao outro um lugar ético ou idôneo que não temos certeza de poder seguir. Muitas vezes, depende do contexto para a gente bancar essa ética. Eu não conseguiria apontar um dedo para a Inez. Eu compreendo as razões dela. A gente falha mesmo, faz más escolhas e se atropela.
Esse é um ponto interessante de discutir, porque eu tenho a convicção de que ninguém acha que é mau. As pessoas sempre acham que estão fazendo as melhores escolhas naquele momento, estabelecendo suas prioridades, e erram muito. E, claro, o que isso se mostra, às vezes, é vaidade, arrogância, prepotência, medo, insegurança.
















































